Multiartista guarulhense produz filme inspirado em sua avó materna
Elizabeth Regina viu a oportunidade de contar a história da avó Maria Severina de forma singela, simples e repleta de afeto
Mães que também são avós — encantadas, benzedeiras, rezadeiras, meninas e mulheres que dão continuidade aos saberes são as personagens de Bença, vó!, curta-metragem de Elizabeth Regina, multiartista guarulhense estreante na direção geral do filme que integra o projeto Benzedura: Raízes y Identidades.
O lançamento do filme, realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio do Fundo Municipal de Cultura de Guarulhos – Funcultura, acontece no próximo dia 30 de maio, sexta-feira, às 19h, no Teatro Padre Bento, no Jardim Tranquilidade. A classificação é livre e a entrada, gratuita.
Oralidade, pertencimento e identidade

O ponto de idealização do filme foi o livro As Sete Benzedeiras e suas Histórias, da escritora Débora Kikuti. Foi a partir daí que Elizabeth Regina viu a oportunidade de contar a história de sua avó materna, Maria Severina, de forma singela, simples e repleta de afeto.
Mãe de Maria Lua, filha de Adriana Maria, neta de Maria Severina, bisneta de Maria Creusa e nora de Maria Tiaga, a jovem cineasta de 28 anos constrói uma narrativa que revela as trajetórias de tantas outras mulheres, que deixaram sua cidade natal para construir a vida distante, mas que de alguma forma tentaram trazer um pouco do seu sagrado, sua oralidade, pertencimento e identidade para o lugar onde foram morar.
Atriz formada pela Escola Viva de Artes Cênicas, Elizabeth Regina tem trajetória marcada a partir de experiências no teatro popular, teatro de rua e palhaçaria. Mas foi somente depois de sua participação em um filme independente, “uma ponta”, como ela diz, que seu interesse pela linguagem cinematográfica despertou, sobretudo nas áreas de cenografia e direção de arte.
“Depois de trabalhar com a Companhia Bueiro Aberto, me interessei muito pela forma como é possível transcrever os sentimentos através dos cenários, figurinos e dos objetos de cena, tudo aquilo que caracteriza a atmosfera de um filme”.
Apaixonada e encantada com o que aprendeu, Elizabeth decidiu dedicar-se à direção de seu próprio filme, com a expectativa de contar e reconstruir histórias e vivências. “Eu quis fazer um carinho às mais velhas: minha avó Maria, já falecida, mas não exclusivamente para ela, então, Bença, vó! parte de um estudo e junção das histórias de várias mulheres”.
Eu quero documentar!

Durante o processo de escrita do documentário, a cineasta estreante conta que se reaproximou do folclorista guarulhense Diego Dionísio, com quem já havia trabalhado, e desse contato descobriu um universo de mulheres ligadas à Cultura Popular, o que reforçou a necessidade de revelar saberes que são passados de geração a geração.
“Vi o Dionísio no meio de uma Congada, recebendo uma bênção de uma mais velha, lá na Igreja do Rosário dos Homens Pretos, na Penha, durante a Virada Cultural de 2023, achei aquilo tão belo, tão sagrado, lindo, puro, e falei, meu Deus, eu tenho que terminar o documentário, porque é isso que eu quero fazer. Eu quero documentar!”.
Elizabeth convidou a amiga Ariana Marabô como proponente do projeto apresentado para o edital do Fundo Municipal de Cultura de Guarulhos (Funcultura) e conquistou recursos da Lei Paulo Gustavo para sua finalização, para ela, grande oportunidade para a realização de projetos culturais por parte dos artistas independentes.
“Cinema na quebrada é afirmação, é sobre fazer cinema com afeto, com verdade. Estamos acostumados a fazer os filmes de forma independente, muitas vezes, com pouco ou nenhum orçamento. Então, quando tem uma lei como a Paulo Gustavo, temos a oportunidade de construir mais histórias, fazer com muito amor e muita potência, com o pé no chão e com o coração em chamas, trabalhar com a pessoas que sempre somaram comigo, com quem compartilhei sonhos, pessoas que aceitam a arte como ferramenta de transformação”.
Evitar o apagamento de práticas ancestrais

Bença, vó! é resultado de um processo de mapeamento e descoberta das benzedeiras de Guarulhos, cujo objetivo é celebrar a memória viva dessas práticas ancestrais, evitando, assim, que caiam no esquecimento.
“O argumento do filme objetivou mapear quem eram essas mulheres, tomando como base aquelas que eu já conhecia, a Maria do Carmo, moradora do Jardim Presidente Dutra, a Ynayá Pankararu e a Simone Pankararu, ambas da Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, localizada no Cabuçu”.
A pesquisa no boca a boca levou a jovem às demais benzedeiras, primeiro Margarida de Oliveira Bernardes, moradora do Bonsucesso, e logo a Iyalorixá Mãe Cláudia de Oyá, do Ilê Alaketu Asé Ifá Omo Oyá, no bairro dos Pimentas, Mãe Arlete D’Oxum, da Tenda de Umbanda Aldeia da Fé Caboclo Bibiano e a Vó Nazaré, no bairro São João.
Durante as gravações, Elizabeth conta que viveu momentos de descobertas incríveis, sobretudo pela forma como essas benzedeiras desempenham papel fundamental nas comunidades onde vivem e trabalham e na forma como lidam com as pessoas que as procuram.
“Certo dia em que estávamos gravando com a Dona Margarida, no meio da entrevista chegou uma criança para ela benzer. Achei aquilo tão incrível, eu não entrei, não gravei o momento daquele benzimento, paramos o que estávamos fazendo porque ela ia atender, aquilo é muito sagrado e você precisa ter esse respeito”.
Diante do desejo de continuar documentando, Elizabeth Regina assume a responsabilidade de evitar apagamentos, de montar um grande quebra-cabeça para que tanto sua filha, Maria Lua, quanto as gerações futuras possam saber de onde vieram e, de alguma forma, dar continuidade a essa história.
“Quero, de alguma forma, deixar essa memória, esse saber, viajar, conhecer outras culturas aqui do nosso Brasil.“Meu maior sonho, de coração, é ter todas as oportunidades possíveis para documentar. Quero continuar documentando o que é mais sagrado, o que é mais belo, de mostrar para o mundo tudo que eu puder mostrar, tudo o que eu consegui viver da cultura popular”.




Parabens!!!! linda materia, não só porque fala de minha mãe mas você foi a fundo …Menina você é maravilhosa, trabalho lindo!!!!!
Parabens!!!! mais uma vez…Não só para você, mas para toda a sua equipe.
Muito interessante esta iniciativa, parabéns !!!!