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Celebração da ancestralidade marca estreia do curta-metragem da multiartista guarulhense Elizabeth Regina

Exibição do filme Bença, vó! emocionou grande público ao Teatro Padre Bento, pessoas mais que dispostas ao encantamento

O público do Teatro Padre Bento vivenciou na última sexta-feira (30), uma grande celebração do sagrado, oralidade, pertencimento e identidade de mulheres que têm em comum a prática ancestral de benzimento e cura por meio da fé. A exibição do curta-metragem Bença, vó!, da multiartista guarulhense Elizabeth Regina, foi mais que a reunião de pessoas dispostas ao encantamento, antes, um encontro potente, que emocionou os participantes do começo ao fim.

A cada instante, a beleza do evento se revelava nos detalhes, nos altares e espaços cenográficos dispostos no hall de entrada do teatro ao clima de reverência que tomou conta do lugar, repleto de amigos, familiares e admiradores do trabalho da artista, além de produtores do audiovisual envolvidos na produção e no carinho pela estreia de Elizabeth Regina como diretora, oxalá a primeira de muitas direções.

A abertura do evento aqueceu os corações. Fazia frio, mas isso não impediu que os doces corpos se deslocassem até a área externa do teatro, acompanhando quase que em transe o ritmo inebriante do grupo Coco de Muié, que presenteou o público com repertório sensível, repleto de palmas, simbologias e danças. Nessa apresentação, merece destaque a alegria das crianças Luna Rosa Izidório, Áurea Albuquerque de Queiroz, Ágatha Albuquerque de Queiroz
Lorena Ferreira, Maria Lua de Campos Massarelli, Maia Félix, Makeda da Paz, Isis Winter Leme de Souza e Maria Flor Moraes Campos de Almeida, meninas que perpetuam o legado de suas mais velhas ao entoar canções, reavivar as memórias, compartilhar da fé. Na história que a cineasta conta, tanto a alegria das crianças quanto os ritmos do grupo Coco de Muié se fazem presentes na trilha sonora.

No coração do teatro, a exibição de pouco mais de 25 minutos trouxe histórias simples sobre o trabalho das benzedeiras, das guardiãs de saberes e memórias ancestrais, da transmissão intergeracional das curas sagradas vindas da terra. Primeiro veio Margarida de Oliveira Bernardes, moradora do Bonsucesso, e logo a Iyalorixá Mãe Cláudia de Oyá, do Ilê Alaketu Asé Ifá Omo Oyá, no bairro dos Pimentas. Depois, Elizabeth Regina deu voz a outras benzedeiras, Mãe Arlete D’Oxum, da Tenda de Umbanda Aldeia da Fé Caboclo Bibiano e a Vó Nazaré, no bairro São João, além de Ana Paula Pankararu e Simone Pankararu, da Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, no Cabuçu, com as quais já tinha contato.

Nesse trabalho de reconstruir histórias e vivências, Elizabeth trouxe para o filme descobertas incríveis, sobretudo pela forma como essas benzedeiras desempenham papel fundamental nas comunidades onde vivem e trabalham e na forma como lidam com as pessoas que as procuram.

Elizabeth fez muito mais que um filme sensível sobre as histórias de vida de mulheres benzedeiras de Guarulhos. A jovem estreante também prestou homenagem à sua avó materna, Maria Severina, mulher forte, matriarca, a primeira de muitas Marias que permeiam a existência de Elizabeth: sua mãe Adriana Maria, sua filha Maria Lua, sua bisavó Maria Creusa e sua sogra Maria Tiaga. 

Minutos antes da exibição, Elizabeth desejou ao público: “Eu espero que vocês sintam a vontade de encontrar o caminho de volta para casa”. Ela não imaginava que a produção seria capaz de lotar o Teatro Padre Bento, não fazia ideia da proporção que o filme alcançaria e a quantidade de pessoas impactadas Elizabeth Regina estava muito feliz e não era para menos. “Sinceramente eu não imaginava que seria tão grandioso esse retorno. Muitas pessoas que eu sequer conhecia vieram falar comigo e choraram, que não faziam ideia do que seria o filme, e isso foi muito rico. Muitas choraram ao dizer que isso lembrava a avó, que isso lembrava a mãe, que isso lembrava a irmã. Esse poder feminino ancestral é muito curioso, essa oralidade de você passar para sua mais velha, para sua mais nova. Eu fiquei muito, muito feliz e muito surpresa”, disse. Para Elizabeth foi realmente muito bonito; a cada um de nós resta apenas agradecer pela oportunidade de conhecer essas histórias.

Fotos: Camila Rhodes

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