Notícias

Sucesso que populariza obra de Dostoiévski, o espetáculo Os Irmãos Karamázov volta aos teatros de São Paulo

Com elenco formado por artistas como Caio Blat e Babu Santana, que ganhou o Prêmio Bibi Ferreira 2025 pela atuação, a adaptação teatral do clássico da literatura mundial percorrerá teatros do Sesc SP, em Franca, Guarulhos, Taubaté e Interlagos em outubro e novembro

Um dos maiores clássicos da literatura mundial ganhou montagem teatral inédita, capaz de arrebatar diferentes gerações. Após apresentações celebradas no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e no coração de São Paulo, o espetáculo Os Irmãos Karamázov, com adaptação de Caio Blat e Manoel Candeias para o romance do autor russo Fiódor Dostoiévski, ultrapassa os limites da capital paulista para circulação nos teatros do Sesc SP em Franca, Guarulhos, Taubaté e Interlagos, entre os dias 17 de outubro e 9 de novembro. Apontada por Freud como uma obra-prima da humanidade, a trama retrata uma família desestruturada, marcada por paixões, disputas financeiras, dilemas existenciais e um pai perverso.

Dirigida por Marina Vianna e Caio Blat, a montagem traz diálogos ágeis, cenas intensas e um elenco diverso. “A nossa adaptação fez uma opção radical de seguir só os três dias em que a tragédia se desenvolve. A gente acreditou que a partir da urgência e da loucura dos personagens nesses três dias, é possível conhecer a personalidade de cada um. A partir daí, o desafio foi sintetizar numa peça rápida, vertical e vertiginosa os principais temas, e revelar a alma de cada um dos personagens”, acredita Caio, que acumula as funções de adaptação, direção e interpretação no projeto. 

O elenco responsável por dar vida e alma aos personagens de Dostoiévski é formado por Babu Santana (que venceu o Prêmio Bibi Ferreira 2025, na Categoria Melhor Ator Coadjuvante, no dia 15/10 pela atuação na obra), Nina Tomsic, Pedro Henrique Muller, Catharina Caiado, Priscilla Rozenbaum, Lucas Oranmian, Luiza Loroza e Lorena Lima, além do diretor Caio Blat, que também atua. Na encenação, a escolha do elenco não se ateve ao gênero dos artistas em relação aos personagens descritos.

Ambientado na Rússia pré-revolucionária, a produção traz para o palco temas atemporais como culpa, justiça, autoritarismo e a busca por libertação de figuras opressoras, simbolizada no desejo dos filhos de destruir o pai corrupto. O espetáculo explora essas questões com linguagem acessível e popular, aproximando-se dos temas que assolam a sociedade brasileira. “Todos os aspectos sociais da Rússia czarista que estão no texto – o abismo social, o patriarcado, o autoritarismo, a religião decadente que explora e ilude o povo – podem ser perfeitamente compreendidos pelo brasileiro hoje. A gente não precisou fazer nenhuma transposição, nem nenhuma grande pesquisa sobre a Rússia czarista, todos os símbolos que estão na peça são facilmente reconhecidos por qualquer plateia”, observa Caio Blat.

Além dos atores e atrizes, estarão em cena os músicos Arthur Braganti (também diretor musical do espetáculo) e Thiago Rabello; as artistas-intérpretes de libras Maria Luiza Aquino e Juliete Viana; e Sofia Badim, assistente de direção, compondo um grupo heterogêneo de 13 atores que se revezam para contar essa história, ora em coro, ora individualmente, com seus corpos e funções diversos.

A adaptação é fruto de 10 anos de estudo de Caio Blat e Manoel Candeias sobre a obra de Dostoiévski e o romance, além de quatro meses de um intenso processo criativo, com o elenco e o grupo de artistas envolvidos para a realização do espetáculo. Isabela Capeto assina a direção de arte e o figurino (vencedora do Prêmio Bibi Ferreira, na Categoria Melhor Figurino); Amália Lima, a direção de movimento; Arthur Braganti, a direção musical e trilha sonora original; Gustavo Hadba e Sarah Salgado, o desenho de luz; Moa Batsow, a cenografia; Raissa Couto, a acessibilidade criativa, ao lado de Maria Duarte, que responde pela direção de produção do espetáculo.

Embora hoje seja considerado erudito, Dostoiévski foi um escritor popular e acessível. O romance Os Irmãos Karamazov foi publicado originalmente como folhetim, uma novela em capítulos no jornal. A montagem pretende popularizar o escritor e a sua obra no Brasil. Segundo Maria Duarte, para se produzir um espetáculo para o grande público, além da proposta artística da encenação, é preciso pensar na acessibilidade de fato. “É isto o que me move nesse projeto desde o primeiro dia: realizar um espetáculo realmente acessível. Isso implica olhar para a acessibilidade não como uma contrapartida, um problema a ser resolvido, um recurso a ser inserido depois da criação. E sim uma lente a mais para os criadores, que inspira e amplia possibilidades. Essa foi a minha proposta para a direção e toda a equipe envolvida. Quis trazer intérpretes atrizes para a cena com o elenco, e não tradutores de Libras numa lateral do palco. E o que parecia no início um problema, abriu uma explosão de ideias nesse processo, emocionante de ver”, completa a diretora de produção.

A acessibilidade como pilar criativo

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), há mais de 1,3 bilhão de pessoas com deficiência em todo o mundo. “É urgente encararmos este assunto, e considerarmos a acessibilidade como premissa da criação de um espetáculo, um show, um evento, um livro, qualquer produção cultural. Não é mais possível, em pleno 2024, se cogitar produzir um espetáculo teatral ignorando essa parcela da população”, afirma Maria. A produtora propõe a criação de um projeto inovador e ousado, que pensa a acessibilidade criativamente, entrelaçada de forma orgânica com a dramaturgia e a encenação. Todos os pilares criativos do espetáculo foram convocados – do figurino à comunicação – para o desafio de criar um espetáculo para todos, de fato.

Fugindo do literal e do óbvio, a montagem inclui artistas intérpretes no elenco e o uso da língua brasileira de sinais nos diálogos e na composição do gestual da encenação, além de soluções que incluem efeitos sonoros, suportes táteis, comunicação acessível e outras iniciativas inéditas. Para esse desafio, o projeto conta com a direção de Raíssa Couto e o envolvimento de uma equipe de consultores, com e sem deficiência, envolvidos desde o início do processo criativo. “Trabalho há quase 15 anos com acessibilidade e anticapacitismo e nunca recebi um convite parecido como este para um projeto que não tem essa temática”, comenta Raíssa.

A produção envolveu artistas com deficiência, que atuaram ativamente no processo criativo desde a montagem do espetáculo, como a consultora Moira Braga e a bailarina intérprete Maria Luiza Aquino.

Assim como a criação do espetáculo, a divulgação também considera a acessibilidade integrada. A proposta é que pessoas com deficiência também se sintam convocadas a ir ao teatro, engajando um público ainda mais amplo na formação de plateia. Nesse contexto, o projeto conta com a parceria de instituições como o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), o Instituto Benjamim Constant (IBC) e o Conselho da Pessoa com Deficiência do Município do Rio de Janeiro, bem como artistas influenciadores com deficiência.

Figurinos como obras de arte e uma nova forma de fazer

Isabela Capeto, assina a direção de arte e figurino do espetáculo, fazendo coro à linguagem contemporânea e inovadora proposta pela direção. Reconhecida pelo maximalismo e o uso abundante de cores em suas coleções, Isabela apresenta um conjunto de figurinos brancos, produzidos artesanalmente, a partir de material de origem sustentável.

A criação dos figurinos partiu da sugestão da obra “Branco sobre Branco”, de Malevich, além de outras referências visuais sugeridas pelos diretores Caio Blat e Marina Vianna, e mobilizou a estilista para uma imersão sobre o romance e os personagens. “Experimentamos uma nova forma de fazer. Desde o começo, foi colocado pela Maria (Duarte) a proposta de construir junto. Estou acompanhando todo o processo criativo dos atores desde o início, nas primeiras leituras e nos ensaios diários. É diferente de uma figurinista que faz o figurino, entrega e ponto. Tem uma relação. Eu quero ir a todos os espetáculos!”, conta.

Visando a economia de recursos e considerando os impactos negativos da indústria têxtil no planeta – que, somente no Brasil, gera 175 mil toneladas de resíduos por ano – a produção do espetáculo procurou a Oficina MUDA, empresa que promove a economia circular e a gestão dos resíduos sólidos da indústria têxtil brasileira, para estabelecer uma parceria em prol dos figurinos e do cenário do espetáculo. A proposta foi acolhida com entusiasmo pela fundadora e diretora criativa Larissa Greven, e o que poderia ser visto como uma dificuldade para a equipe de figurino foi o que mais entusiasmou a estilista Isabela Capeto. “Já fiz alguns figurinos, mas nunca me identifiquei tanto com um trabalho. Eles me deram liberdade para fazer o que eu queria. Me disseram, a história é essa, vamos juntos, mas eu fiquei muito livre para fazer o figurino. E ainda aconteceu essa proposta de reutilizar materiais, pensar um figurino sustentável, com restos de tecido e reaproveitamento de roupas, o que é o que eu sei fazer melhor. Quando comecei lá atrás, fazia tudo em cima da customização, está no meu DNA, eu amo fazer! O figurino é todo feito à mão, artesanal. E criamos a partir dos tecidos doados pela MUDA, sobras de materiais de coleções antigas do meu ateliê, o elenco também trouxe roupas velhas para serem aproveitadas. Todos se envolveram, isso é maravilhoso.”

A polifonia na montagem teatral

Segundo Mikhail Bakhtin, filósofo e pensador russo, teórico da cultura e das artes e pesquisador da linguagem humana, Os Irmãos Karamazov é um acontecimento literário polifônico. A imagem da polifonia, conceito originalmente desenvolvido na música, se refere às múltiplas vozes e perspectivas que colidem sem um único ponto de vista dominante, como a do narrador, tradicionalmente. Esta característica marcante da obra de Dostoiévski norteou a criação cênica e toda a direção musical do espetáculo.

A gente transformou a literatura numa peça coral, uma peça coletiva em que as vozes se sobrepõem, cada personagem que entra em cena toma a narrativa do outro, e se torna o narrador por algumas cenas, depois outro personagem toma a voz. E em algumas situações as vozes começam a se sobrepor, a ecoar: repetições de frases de personagem para o outro. Tem ainda a Libras dentro de cena, como outra voz para o mesmo texto. Até literalmente o canto polifônico que abre a peça, uma canção russa de um canto polifônico ortodoxo, voltando às origens do texto”, comenta Caio. “E a dramaturgia da música que está em cena. As várias camadas sonoras: as palavras do texto, do Dostoiévski e as palavras de dentro de cada personagem, que ecoam, que multiplicam ruídos, murmúrios… Os gestos que também podem comunicar”, complementa a diretora Marina Vianna.

De forma contemporânea e também inovadora, a montagem espera levar para os palcos a polifonia característica da obra de Dostoiévski.

Sinopse

O espetáculo se passa na Rússia pré-revolucionária e acompanha as disputas entre os irmãos Karamázov e seu pai, Fiódor, pela herança da família e pelo amor da mesma mulher. Nesse caldeirão explosivo de ressentimentos familiares, cada um dos irmãos colabora de sua maneira para o mais temido desfecho: o assassinato do pai tirano com a participação ou omissão de cada um de seus filhos. Espetáculo bilíngue. Classificação Etária: 16 anos. Duração: 120 minutos

Serviço

Os Irmãos Karamázov

De Fiódor Dostoiévski

Direção: Marina Vianna e Caio Blat
Dramaturgia: Caio Blat e Manoel Candeias
Direção de Produção: Maria Duarte
Produção Artística: Luisa Arraes
Elenco: Babu Santana, Caio Blat, Catharina Caiado, Lucas Oranmian, Nina Tomsic, Pedro Henrique Muller, Priscilla Rozenbaum, Luiza Loroza e Lorena Lima. Músicos: Arthur Braganti, Thiago Rebello. Artistas intérpretes: Juliete Viana, Malu Aquino. Coro: Sofia Badim.

Rodas de Conversa

Tema: O trabalho do ator na construção dos personagens.

Encontro com elenco e equipe sobre o processo criativo de montagem do espetáculo.

Evento acessível. Duração: 60 minutos

Receptivo bilíngue e preparado para atender pessoas com deficiência.

Agenda — Programação no Sesc com preços populares

GUARULHOS
Sessões: 24, 25 e 26 de outubro, de ​sexta-feira a domingo​.

Horário: ​Sexta a sábado às 20h e Domingo às 1​8h
Teatro do Sesc Guarulhos – Rua Guilherme Lino dos Santos, 1200, Jardim Flor do Campo – Guarulhos/SP

Valores: R$ 60,00 | R$ 30,00 | R$ 18,00

Roda de Conversa: 25 de outubro, sábado, às 17h (entrada gratuita)

Atendimento à imprensa

Débora Silva

[email protected] 21 99417 8545

Foto: Annelize Tozetto

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *